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9 de Setembro de 2026

Setor elétrico precisa conciliar descarbonização, competitividade e segurança energética, apontam especialistas na ABM Week 10

Mesa-redonda reuniu representantes da academia, planejamento energético, operação do sistema e consumidores de grande escala para discutir os desafios de energia da siderurgia brasileira

Fonte: Assessoria ABM


A descarbonização da siderurgia brasileira depende não apenas da ampliação de fontes renováveis, mas também da capacidade de o setor elétrico oferecer energia competitiva, flexível e compatível com as necessidades de uma indústria de uso intensivo. Esse foi um dos principais pontos discutidos na mesa-redonda “Energia e utilidades: os desafios e oportunidades do setor elétrico para descarbonização da siderurgia brasileira”, realizada na manhã desta quarta-feira (9), durante a 10ª edição da ABM Week, em São Paulo.

Organizado pela Comissão Técnica de Energia e Utilidades da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), o encontro reuniu Marcos Prudente, gerente geral de Energia e Gás Natural da Gerdau, como moderador; além de Amaro Pereira, professor da COPPE/UFRJ; Arnaldo dos Santos Junior, superintendente-adjunto de Estudos Econômico e Energéticos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE); Fernando Machado Silva, Gerente Executivo de Planejamento Elétrico do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS); e Paulo Pedrosa, presidente executivo da ABRACE Energia. O debate abordou aspectos técnicos, econômicos, regulatórios e de infraestrutura relacionados à transição energética da indústria. 

Na abertura das discussões, Marcos Prudente apresentou um panorama do atual perfil energético da siderurgia brasileira. Segundo os dados apresentados, cerca de 76% da produção de aço no país utiliza a rota integrada a coque, enquanto 22,9% utiliza a rota elétrica, o que evidencia o tamanho do desafio para uma eventual ampliação da eletrificação dos processos.

O especialista também chamou atenção para a escala de energia necessária para diferentes alternativas de transição. Enquanto a rota integrada a coque demanda aproximadamente 1,1 GW de eletricidade, uma eventual produção baseada em hidrogênio verde poderia elevar essa necessidade para cerca de 19 GW. A substituição do carvão mineral por gás natural, por sua vez, representaria mais que o dobro da demanda energética atual da siderurgia, conforme os números apresentados durante a mesa. “O desafio também está no Brasil fazer disso um ponto visto como positivo”, afirmou Prudente, ao relacionar as características da matriz energética nacional às oportunidades para a indústria brasileira.


Transição energética exige mudanças no modelo do setor elétrico

Amaro Pereira apresentou as transformações pelas quais passou o sistema elétrico e relacionou esse processo à transição energética. Segundo o professor, o modelo tradicional, baseado em um fluxo predominantemente unidirecional entre geração e consumo, vem dando lugar a uma estrutura mais dinâmica, na qual consumidores também podem produzir energia em menor escala.

Essa transformação está associada ao conceito dos 3Ds da transição energética: descentralização, digitalização e descarbonização. Entre os caminhos possíveis está a substituição de fontes fósseis por eletricidade, embora a existência de setores de difícil descarbonização imponha limites e exija soluções específicas.

Pereira também avaliou que o Brasil ainda possui condições para alcançar as metas climáticas de emissões de gases de efeito estufa estabelecidas para diferentes setores até 2035, desde que sejam consideradas as particularidades de cada atividade econômica.


Matriz brasileira oferece vantagem, mas expansão exige planejamento

A perspectiva de longo prazo foi aprofundada por Arnaldo dos Santos Junior, da EPE, que apresentou aspectos do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 e estudos sobre a renovabilidade da matriz energética brasileira em comparação com outros países.

De acordo com o especialista, o Brasil apresenta um nível de renovabilidade superior ao observado em países europeus, com mais que o dobro do índice registrado em algumas dessas economias. Para os próximos anos, entretanto, a evolução da matriz dependerá das escolhas feitas em relação à expansão das diferentes fontes de energia.

O planejamento também considera a possibilidade de crescimento da produção siderúrgica e a experiência brasileira no uso de biomassa. Nesse contexto, foram apresentados cenários que indicam potencial de investimentos de até R$ 10 milhões nos próximos dez anos, dependendo das configurações adotadas para a expansão energética.

A discussão reforçou que a vantagem comparativa brasileira em relação à disponibilidade de fontes renováveis precisa ser convertida em condições efetivas para a indústria, especialmente diante da concorrência internacional por investimentos e capacidade produtiva.


Crescimento das fontes renováveis aumenta desafio de flexibilidade

A operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) foi outro ponto central do encontro. Alexandre Zucarato, diretor de Planejamento do ONS, apresentou os desafios provocados pela expansão das fontes renováveis variáveis, especialmente a solar fotovoltaica.

Atualmente, a fonte solar representa aproximadamente 19% da matriz elétrica brasileira, e a expectativa apresentada durante o debate é de que a capacidade de geração solar possa passar de cerca de 20 GW para 40 GW até 2031. Em determinados momentos do dia, a geração fotovoltaica pode chegar a representar 57% da produção nacional de energia, concentrada principalmente no período próximo ao meio-dia.

Esse comportamento cria um desafio operacional para o sistema: equilibrar a oferta e a demanda diante de uma geração que varia ao longo do dia. Para enfrentar esse cenário, o ONS vem trabalhando em diferentes frentes, enquanto novas soluções, como sistemas de armazenamento por baterias, ganham importância.

Outro fenômeno citado foi o avanço dos data centers, cuja demanda pode representar cerca de 18 GW de energia em todo o país, ampliando a necessidade de planejamento da expansão e da disponibilidade do sistema.

Nesse contexto, também foi discutida a mudança na lógica de alocação de recursos do setor elétrico, com a proposta de substituir o modelo tradicional de fila por um processo competitivo para acesso a um recurso escasso. A flexibilidade passou a ser apontada como uma das palavras-chave para o funcionamento do sistema diante do crescimento das fontes intermitentes.


Energia precisa ser verde e competitiva

Representando os grandes consumidores, Paulo Pedrosa destacou que a transição energética precisa considerar o impacto dos custos sobre a competitividade da indústria brasileira. Para ele, a redução das emissões não pode ser dissociada da capacidade de os produtos nacionais competirem em escala global.

O presidente executivo da ABRACE Energia avaliou que decisões tomadas ao longo dos últimos anos contribuíram para elevar custos e encargos do setor elétrico. Também criticou os efeitos da rápida expansão da geração solar distribuída sobre a estrutura de custos e defendeu maior organização do planejamento energético nacional.

Na avaliação de Pedrosa, a elevação dos custos também está relacionada à precificação dos riscos pelos agentes de geração. Por isso, o país precisaria estabelecer um planejamento capaz de oferecer previsibilidade e energia a valores competitivos, criando condições para a expansão da indústria e para novos investimentos.

A discussão evidenciou, assim, que a transição energética da siderurgia envolve uma equação que ultrapassa a simples substituição de combustíveis. Disponibilidade de energia, infraestrutura, flexibilidade operacional, regulação, custos e segurança do abastecimento precisam avançar de forma coordenada para que a redução das emissões seja compatível com a competitividade da indústria.

Ao reunir representantes de diferentes elos do setor energético, da academia e dos grandes consumidores, a mesa-redonda reforçou o papel da ABM Week como espaço de discussão técnica sobre os desafios da indústria brasileira. A programação da 10ª edição reúne especialistas, empresas e pesquisadores para tratar de temas relacionados à metalurgia, mineração, materiais, energia, inovação e competitividade, aproximando conhecimento acadêmico e experiência industrial. 


Sobre a 10ª ABM Week

Realizada entre os dias 8 e 10 de setembro, no Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo, a ABM Week é o principal evento técnico-científico e empresarial da América Latina voltado aos setores de metalurgia, materiais e mineração. A programação reúne congressos, seminários, simpósios, mesas-redondas, painéis, sessões técnicas e espaços dedicados à inovação, conectando empresas, academia e especialistas para discutir os principais desafios e tendências da indústria. 

A 10ª edição da ABM Week tem a Gerdau como anfitriã e conta com o patrocínio das seguintes empresas: ArcelorMittal, DME Engenharia, Primetals, SMS group, Ternium, Usiminas, Vale, Bruker, Shinagawa, ACRE, Aperam, Aplan, Carboox, Danieli, HWI – a member of Calderys, Ibar, Tecnosulfur, Reframax, RHI Magnesita, Vesuvius, Aldak, Autron, AVB, Beda/Lechler, BRC, BRX Sistemas, Clariant, Contemp, Danfoss, EnergyTech, GE Vernova, GMI, Harsco, Jenike & Johanson, JK Global, Kaefer RIP, Kuttner, Lhoist, Maud Group, Nalco Water, NSK, Nouryon, Phoenix Global, Polytec, Ramon, Yantai Refra, Rimac, Russula, Tractian, Vika Controls, ABB, AçoKorte, Atomat, Belge, Camet, Cemi, CISDI, Cordstrap, Dan Carbon, Data Engenharia, Delta Ducon, Densit/Densyx, Direxa, Durag, Eirich, Evcomx, Fluke, Fosbel, Furnace Solutions, Gervasi, Hastec, Heidenhain, Heraeus, Herkules Latin America, IMS, Industrial Scientific, Instron, Intelbras, IRF South America, JT & Partners, KMD, Koppern, Lumar Metals, Malvern Panalytical, Rijeza, Ringspann, Sage,  São Joaquim Laminação, SMS Mill Services, SNF, Solenis, Spraying Systems, Suncoke Energy, Terresis MAGNA, TMEIC, Togni, Utis, Veolia, Vixteam, Waelzholz Brasmetal e Weir.