Pesquisa aplicada aproxima indústria, centros de tecnologia e universidades para acelerar inovação
Mesa-redonda reuniu especialistas na ABM Week 10 para discutirem critérios para parcerias, gestão de portfólio, tempo de desenvolvimento e formação de novos pesquisadores
Fonte: Assessoria ABM
Conseguir transferir o conhecimento científico de forma que seja utilizado em soluções aplicáveis à indústria exige mais do que capacidade técnica. É necessário alinhar problemas, competências, recursos, profundidade da pesquisa e tempo disponível para que uma tecnologia chegue ao mercado. Esse foi um dos principais temas discutidos na mesa-redonda “Pesquisa aplicada: Conexões entre empresas, centros de tecnologia e universidades”, realizada durante a 10ª edição da ABM Week, em São Paulo.
O encontro teve mediação de Geraldo Lúcio de Faria, professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e reuniu os palestrantes Thompson Reis, coordenador de P&D e Inovação em Materiais do CIT SENAI/FIEMG; Tarcísio Reis de Oliveira, gerente-executivo da Pesquisa da Aperam; Fernando Martinelli, gerente geral de Pesquisa & Desenvolvimento da ArcelorMittal; Leonardo José Silva de Oliveira, Research & Development Senior Manager da Usiminas; e Rafael Mesquita, diretor-executivo de Tecnologia da CBMM.
O debate abordou desde os critérios utilizados pelas empresas para selecionar projetos de pesquisa e parceiros externos até a necessidade de aproximar universidades, centros de tecnologia e áreas industriais. Também foram discutidos modelos de inovação aberta, gestão de portfólio, níveis de maturidade tecnológica e comercial, além das competências necessárias para a formação dos profissionais que atuarão nos centros de pesquisa.
Integração precisa começar pelo entendimento do problema
Um dos pontos destacados pelos participantes foi que a aproximação entre empresas e instituições de pesquisa não deve partir apenas da disponibilidade de determinada tecnologia ou equipamento, mas do entendimento claro do problema que precisa ser solucionado.
Para Rafael Mesquita, da CBMM, o primeiro passo para uma parceria eficiente é compreender profundamente as necessidades de cada lado. Na avaliação do executivo, empresas e instituições de pesquisa ainda podem avançar no conhecimento mútuo sobre competências e desafios.
Essa lógica também está presente no modelo de inovação aberta adotado pela companhia. Segundo Mesquita, a CBMM concentra internamente competências relacionadas ao desenvolvimento de seus produtos de nióbio, mas amplia a cooperação com clientes, institutos de pesquisa, universidades e outros integrantes do ecossistema quando o objetivo é desenvolver novas aplicações.
O modelo busca não apenas aperfeiçoar produtos para mercados já existentes, mas também criar novas aplicações capazes de ampliar a demanda pelo nióbio. De acordo com os dados apresentados durante o painel, a empresa mantém atualmente 261 projetos individuais, com cerca de US$ 50 milhões investidos, sendo aproximadamente 80% dos recursos destinados à inovação aberta.
A estratégia é organizada em diferentes horizontes de inovação e acompanha a evolução dos projetos desde os estágios iniciais de desenvolvimento até a fase comercial. “Para que seja possível desenvolver um novo mercado, é necessário trabalhar de maneira planejada todo o ecossistema. Dessa forma, ele estará pronto e totalmente capacitado para realizar a captação dessa tecnologia”, afirmou o executivo.
Tempo de desenvolvimento depende do problema e do mercado
A necessidade de acelerar a inovação também foi relacionada ao chamado time to market (TTM). Para os participantes, não existe um prazo único para o desenvolvimento de uma tecnologia: a duração depende do nível de risco, da urgência comercial e da profundidade científica necessária para solucionar determinado problema. Mesquita defendeu que empresas e centros de pesquisa devem definir previamente qual nível de conhecimento é necessário para cada projeto. Uma demanda urgente pode exigir uma solução mais rápida e objetiva, enquanto uma mudança tecnológica de longo prazo permite ciclos maiores de investigação e validação.
A avaliação foi compartilhada por Fernando Martinelli, da ArcelorMittal, que destacou que o ritmo da pesquisa precisa considerar o tempo exigido pelo negócio. Segundo ele, a escolha dos parceiros também depende da capacidade de cada instituição em responder a determinado desafio dentro do prazo necessário.
Já para Tarcísio Reis de Oliveira, da Aperam, a relação entre empresas e universidades evoluiu nos últimos anos. O gerente executivo avalia que houve redução de parte das barreiras burocráticas e aumento da capacidade das instituições de pesquisa em responder às demandas da indústria. “Essas interações têm aumentado bastante com o passar do tempo. Por mais que esse caminho precise evoluir mais, acredito que, até o momento, houve bastante progresso. Muitas empresas ainda não possuem internamente todas as competências necessárias para desenvolver uma solução. Por isso, a identificação de parceiros com conhecimentos complementares é parte importante do planejamento de pesquisa", afirmou Oliveira.
Portfólio combina retorno de curto prazo e apostas de longo prazo
Outro tema discutido foi a seleção dos projetos que recebem recursos dentro dos programas de P&D. Como os orçamentos são limitados, os centros de pesquisa precisam equilibrar demandas imediatas, oportunidades de mercado e projetos de maior risco e horizonte de longo prazo. Na Aperam, Oliveira explicou que esse equilíbrio é feito por meio de um funil de inovação com diferentes stage gates e participação de áreas como pesquisa, estratégia, desenvolvimento de mercado e metalurgia. Segundo o executivo, os projetos de retorno mais próximo concentram a maior parte dos recursos, enquanto outra parcela é preservada para iniciativas de longo prazo.
A estratégia busca manter a chamada ambidestria da inovação para gerar resultados no presente, sem interromper o desenvolvimento de tecnologias que podem produzir impactos futuros. Na Usiminas, Leonardo José Silva explicou que a empresa trabalha com um plano anual de projetos de pesquisa, considerando cenários internos e externos e a proximidade com áreas como assistência técnica e vendas. Para demandas de curto e médio prazo, a companhia utiliza uma ferramenta própria de priorização.
A preocupação com o resultado comercial também foi destacada durante o debate. Além do Technical Readiness Level (TRL), indicador utilizado para acompanhar a maturidade tecnológica, os participantes discutiram a importância de avaliar desde o início se uma solução terá condições de chegar ao mercado. A lógica foi exemplificada pelo consultor Antônio Fonseca, ex-diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Vallourec, que defendeu a utilização conjunta de indicadores de maturidade tecnológica e comercial. A avaliação reforçou que um projeto tecnicamente bem-sucedido pode não se tornar um produto caso não exista uma aplicação economicamente viável.
Universidades têm papel na formação técnica e comportamental
A discussão também avançou para a formação dos profissionais que atuarão nos centros de pesquisa. Para os participantes, a preparação de novos pesquisadores precisa combinar conhecimento técnico, capacidade de trabalhar em equipe, comunicação, autonomia e visão sobre a aplicação dos resultados. Tarcísio de Oliveira destacou a importância de aproximar estudantes dos ambientes de pesquisa desde cedo. Na Aperam, segundo ele, experiências de estágio, mestrado e doutorado vinculadas à empresa são uma das formas de identificar profissionais que poderão integrar os centros de pesquisa no futuro.
Rafael Mesquita complementou a discussão ao destacar que a formação profissional precisa combinar hard skills e soft skills. Segundo ele, conhecimentos e habilidades técnicas são indispensáveis, mas atitudes como protagonismo, colaboração e capacidade de buscar soluções também fazem diferença no ambiente de pesquisa.
A formação comportamental foi igualmente ressaltada por Thompson Reis, do CIT SENAI/FIEMG. Na avaliação do especialista, profissionais que chegam aos centros de pesquisa precisam estar preparados não apenas para desenvolver conhecimento, mas também para trabalhar em equipe, compartilhar resultados e compreender as necessidades da indústria.
Na avaliação dos participantes, essa combinação entre conhecimento técnico e competências comportamentais será cada vez mais importante diante da renovação dos quadros dos centros de pesquisa. A aposentadoria de profissionais experientes aumenta a necessidade de formar novas gerações capazes de preservar conhecimentos acumulados e, ao mesmo tempo, incorporar novas tecnologias e formas de trabalho.
A discussão mostrou que a pesquisa aplicada depende de uma relação contínua entre diferentes competências e instituições. Empresas precisam identificar seus desafios e estabelecer prioridades; universidades e centros de tecnologia contribuem com conhecimento, infraestrutura e formação; e os pesquisadores precisam compreender tanto a dimensão científica quanto as condições para que uma solução seja efetivamente aplicada.
Sobre a 10ª ABM Week
Realizada entre os dias 8 e 10 de setembro, no Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo, a ABM Week é o principal evento técnico-científico e empresarial da América Latina voltado aos setores de metalurgia, materiais e mineração. A programação reúne congressos, seminários, simpósios, mesas-redondas, painéis, sessões técnicas e espaços dedicados à inovação, conectando empresas, academia e especialistas para discutir os principais desafios e tendências da indústria.
A 10ª edição da ABM Week teve a Gerdau como anfitriã e conta com o patrocínio das seguintes empresas: ArcelorMittal, DME Engenharia, Primetals, SMS group, Ternium, Usiminas, Vale, Bruker, Shinagawa, Acre, Aperam, Aplan, Carboox, Danieli, HWI – a member of Calderys, Ibar, Tecnosulfur, Reframax, RHI Magnesita, Vesuvius, Aldak Tenologia, Autron, AVB, Beda/Lechler, BRC, BRX Sistemas, Clariant, Contemp, Danfoss, EnergyTech, GE Vernova, GMI, Harsco, Jenike & Johanson, JK Global, Kaefer RIP, Kuttner, Lhoist, Maud Group, Nalco Water, NSK, Nouryon, Phoenix Global, Polytec, Ramon, Yantai Refra, Rimac, Russula, Tractian, Vika Controls, Wisdri, ABB, AçoKorte, Atomat, Belge, Camet, Cemi, CISDI, Cordstrap, DANTAN, Data Engenharia, Ducon, Densit/Densyx, Direxa, Durag, Eirich, Evcomx, Fluke, Fosbel, Furnace Solutions, Gervasi, Hastec, Heidenhain, Heraeus Electro-Nite, Herkules Group, IMS, Industrial Scientific, Instron, Intelbras, IRF South America, JT & Partners, KMD, Koppern, Lumar Metals, Malvern Panalytical, Rijeza, Ringspann, Sage, São Joaquim Laminação, SMS Mill Services, SNF, Solenis, Spraying Systems, Suncoke Energy, Terresis/Magna, Tmeic, Togni, TotalEnergies, Utis, Veolia, Vixteam, Waelzholz Brasmetal e Weir.






