Parcerias e maturidade tecnológica são apontadas como vetores para elevar competitividade da cadeia minero-metalúrgica brasileira
Painel da ABM Week 10 mostrou aplicação industrial de P&D, digitalização, descarbonização e integração entre mineração, siderurgia, engenharia e centros de pesquisa
Fonte: Assessoria ABM
Transformar resultados de pesquisa em soluções industriais capazes de elevar produtividade, qualidade e eficiência foi um dos principais desafios discutidos no painel “Inovação, parcerias e competitividade na mineração e siderurgia”, realizado durante a ABM Week 10. O encontro reuniu os executivos Alexandre Salomão, gerente de portfólio ágil e inovação da Vale; Sérgio Nascimento Leal, gerente de engenharia da Gerdau; e Thiago Campos, head of green steel metallurgy da SMS group. A moderação foi conduzida por Paulo Santos Assis, professor da Escola de Minas de Ouro Preto (UFOP).
Um dos principais pontos discutidos pelos participantes foi como a competitividade da cadeia de produção depende de uma abordagem integrada, na qual mineração, matérias-primas, aglomeração, redução, aciaria, energia, engenharia, serviços e clientes estejam completamente conectados no processo de desenvolvimento e na implantação de resultados com capacidade prática.
Segundo Paulo Assis, a principal barreira para que tecnologias desenvolvidas em universidades brasileiras cheguem à escala industrial está, em grande medida, na necessidade de recursos para elevar sua maturidade tecnológica. “Temos basicamente três níveis definidos: nível de laboratório, nível de piloto e nível industrial. Para que as pesquisas consigam alcançar a indústria, é necessário que haja investimentos de caráter financeiro”, afirma. Na avaliação do professor, as empresas de mineração, siderurgia e engenharia precisam participar dessa etapa de desenvolvimento para acelerar a transição entre pesquisa e aplicação.
Do P&D ao resultado operacional
A apresentação de Alexandre Salomão evidenciou como a Vale estrutura iniciativas de inovação em diferentes frentes de atuação, incluindo produtividade, sustentabilidade e até desenvolvimento de pessoas. Entre os exemplos discutidos durante a palestra esteve o da usina de Conceição 2, localizada em Itabira (MG), que se tornou a primeira unidade da empresa a integrar Inteligência Artificial (IA) aos processos industriais de beneficiamento de minério de ferro.
Com investimentos de R$ 200 milhões e a implementação de 51 soluções voltadas a eliminação de gargalos e melhorias operacionais, foi possível otimizar mais de 400 variáveis em todas as etapas do tratamento de minério graças ao uso da inteligência de dados ao integrar Inteligência Artificial (IA) aos processos industriais de beneficiamento de minério de ferro. Com isso, em menos de dois anos do projeto piloto, houve um aumento de 25% na produtividade, saltando de 9 Mt em 2024 para 11,2 Mt de capacidade produtiva em 2025.
A experiência da companhia também inclui iniciativas de economia circular, como na Fábrica de Blocos do Pico, em Itabirito (MG), que utiliza rejeitos de mineração como matéria-prima para a confecção de produtos de construção civil e, no ano de 2025, a companhia informou ainda a ampliação da cooperação científica com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para desenvolver novos usos industriais para rejeitos e estéril.
Esses casos evidenciam uma tendência discutida durante o painel: a necessidade de transformar passivos e subprodutos de processos industriais em insumos, produtos ou novas fontes de valor.
Digitalização aplicada à competitividade
A Gerdau apresentou projetos de engenharia e tecnologia relacionados à competitividade de suas operações. Entre os exemplos está a infraestrutura de comunicação 4G e 5G implantada em uma de suas usinas localizada na cidade de Ouro Branco (MG) utilizada como base para ampliação de automação, produtividade, flexibilidade, rastreabilidade e uso de inteligência de dados. A infraestrutura cobre mais de 8,3 milhões de m² da unidade e integra uma estratégia de transformação digital dos processos de planejamento, produção e logística.
O ponto central apresentado por Sérgio Leal foi que a tecnologia precisa estar subordinada aos problemas da indústria. Nesse sentido, inovação não significa apenas incorporar novas ferramentas, mas utilizar engenharia e pesquisa para atacar gargalos específicos e gerar retorno financeiro e operacional.
Essa abordagem aproxima a agenda de inovação da tomada de decisão industrial, na qual CAPEX, OPEX, produtividade, confiabilidade dos ativos, qualidade e disponibilidade precisam ser avaliados de maneira conjunta.
Flexibilidade tecnológica para a siderurgia
A necessidade crescente de combinar competitividade e descarbonização também esteve no centro da apresentação de Thiago Campos. Segundo as considerações apresentadas pelo executivo, o setor brasileiro precisa buscar soluções que permitam aumentar produtividade e utilização da capacidade instalada, sem perder de vista a transição para rotas de menor intensidade de carbono.
Entre os caminhos tecnológicos discutidos estavam a modernização de altos-fornos, fornos elétricos a arco (EAF), redução direta e produção de DRI/HBI, melhorias em aglomeração, uso de combustíveis alternativos e valorização de coprodutos.
A discussão também destacou que não existe uma única rota tecnológica capaz de responder a todos os desafios. A seleção deve considerar as condições específicas de cada planta, a disponibilidade de matérias-primas e energia, os investimentos necessários e o retorno esperado. Nesse contexto, a cooperação entre siderúrgicas, mineradoras, empresas de tecnologia e engenharia ganha relevância para compartilhar conhecimento e riscos e definir de forma mais precisa quais problemas precisam ser solucionados de maneira imediata.
De acordo com Paulo Assis, a transição tecnológica da siderurgia exige alternativas ao modelo tradicional de produção baseado em coque. O professor defende o desenvolvimento de tecnologias capazes de utilizar fontes alternativas de gases redutores e destaca o potencial do biogás produzido a partir da biodigestão de resíduos.
Na avaliação do pesquisador, soluções dessa natureza podem integrar uma nova configuração da cadeia siderúrgica, combinando redução direta, produção de ferro esponja e utilização de forno elétrico a arco. Mais do que apontar uma tecnologia específica, a discussão evidenciou o tamanho do desafio para elevar o nível de maturidade de soluções que ainda estão em desenvolvimento e transformá-las em alternativas industrialmente viáveis.
Academia e indústria precisam trabalhar no mesmo problema
A aproximação entre empresas e universidades apareceu como um dos principais pontos de convergência do painel. Assis cita experiências envolvendo a Vale, a Escola de Minas, a Samarco e a UFMG, mas avalia que a parceria precisa avançar para modelos nos quais a aplicação industrial seja considerada desde as primeiras etapas dos projetos.
“Hoje já existe uma conexão entre empresa e universidade. Porém, o grande desafio é fazer um acordo entre as instituições de ensino, centros de pesquisa, empresas e grupos de engenharia, de forma a trabalharem uniformemente para desenvolver tecnologias que possam ser efetivamente empregadas”, ressalta.
O desenvolvimento de competências também foi apontado como condição para essa aproximação. Para o professor, empresas precisam contar com profissionais capazes de dialogar tecnicamente com pesquisadores e centros de desenvolvimento. Segundo o acadêmico, iniciativas de formação de mestres e doutores realizadas por empresas podem contribuir para criar uma linguagem técnica comum e facilitar a transferência de conhecimento.
As discussões do painel mostraram que a agenda de inovação da mineração e da siderurgia passa por uma combinação de fatores: maturidade tecnológica, recursos para P&D, engenharia aplicada, digitalização, formação profissional, eficiência energética, circularidade e novas rotas de produção.
A mensagem central é que nenhuma dessas frentes funciona de maneira isolada, visto que a cadeia de valor precisa permanecer conectada, desde a mineração e as matérias-primas até a siderurgia e o cliente final. Ao promover esse diálogo entre empresas, academia, profissionais e fornecedores de tecnologia, a ABM atua na integração de conhecimento técnico e experiência industrial, criando um espaço para discutir caminhos de inovação, desenvolvimento tecnológico e formação de profissionais capazes de responder aos desafios da indústria de metalurgia, materiais e mineração.
Sobre a 10ª ABM Week
Realizada entre os dias 8 e 10 de setembro, no Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo, a ABM Week é o principal evento técnico-científico e empresarial da América Latina voltado aos setores de metalurgia, materiais e mineração. A programação reúne congressos, seminários, simpósios, mesas-redondas, painéis, sessões técnicas e espaços dedicados à inovação, conectando empresas, academia e especialistas para discutir os principais desafios e tendências da indústria.
A 10ª edição da ABM Week teve a Gerdau como anfitriã e contou com o patrocínio das seguintes empresas: ArcelorMittal, DME Engenharia, Primetals, SMS group, Ternium, Usiminas, Vale, Bruker, Shinagawa, Acre, Aperam, Aplan, Carboox, Danieli, HWI – a member of Calderys, Ibar, Tecnosulfur, Reframax, RHI Magnesita, Vesuvius, Aldak Tenologia, Autron, AVB, Beda/Lechler, BRC, BRX Sistemas, Clariant, Contemp, Danfoss, EnergyTech, GE Vernova, GMI, Harsco, Jenike & Johanson, JK Global, Kaefer RIP, Kuttner, Lhoist, Maud Group, Nalco Water, NSK, Nouryon, Phoenix Global, Polytec, Ramon, Yantai Refra, Rimac, Russula, Tractian, Vika Controls, Wisdri, ABB, AçoKorte, Atomat, Belge, Camet, Cemi, CISDI, Cordstrap, DANTAN, Data Engenharia, Ducon, Densit/Densyx, Direxa, Durag, Eirich, Evcomx, Fluke, Fosbel, Furnace Solutions, Gervasi, Hastec, Heidenhain, Heraeus Electro-Nite, Herkules Group, IMS, Industrial Scientific, Instron, Intelbras, IRF South America, JT & Partners, KMD, Koppern, Lumar Metals, Malvern Panalytical, Rijeza, Ringspann, Sage, São Joaquim Laminação, SMS Mill Services, SNF, Solenis, Spraying Systems, Suncoke Energy, Terresis/Magna, Tmeic, Togni, TotalEnergies, Utis, Veolia, Vixteam, Waelzholz Brasmetal e Weir.






