Agregado siderúrgico pode reduzir custos de manutenção de estradas não pavimentadas e ampliar uso de materiais secundários
Mesa-redonda da ABM Week 10 discutiu resultados de aplicação em rodovias, avanços normativos e desafios ambientais e regulatórios para transformar coprodutos em soluções para infraestrutura
Fonte: Assessoria ABM
O uso de agregados siderúrgicos na melhoria de estradas não pavimentadas pode representar uma alternativa para reduzir custos de manutenção, aumentar a durabilidade das vias e diminuir a necessidade de extração de recursos naturais. O tema foi discutido durante a mesa-redonda “Aplicação sustentável de materiais secundários para revestimento primário em vias”, realizada no primeiro dia da ABM Week 10, em São Paulo.
Promovido pela Comissão Técnica de Economia Circular e Sustentabilidade da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), o encontro reuniu experiências da indústria, do setor público e da pesquisa para discutir propriedades técnicas, desempenho, impactos ambientais e aspectos regulatórios relacionados ao uso de materiais secundários da mineração e da siderurgia em infraestrutura viária. A mesa foi moderada por Leila Kauffmann, diretora da Kauffmann Engenharia e Tecnologia Ambiental.
Aplicação pode gerar economia na manutenção
Um dos destaques apresentados foi a experiência do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) com a aplicação de agregado siderúrgico em uma rodovia não pavimentada no Espírito Santo. Segundo Luciana Michèlle Dellabianca Araújo, assessora técnica da Diretoria de Planejamento e Pesquisa do DNIT, o órgão realizou um trecho experimental na BR-259 para avaliar o potencial do material, em sua forma mais bruta, como promotor de melhoria da trafegabilidade.
Para definir a aplicação, foram realizados levantamentos de campo e estudos em laboratório para determinar a melhor composição entre o solo local e o agregado siderúrgico. A execução do serviço contou com uma recicladora, equipamento que permite acelerar a produção da camada de melhoramento.
Os resultados obtidos no acompanhamento da pista apontaram potencial de economia significativo. Em um comparativo realizado ao longo de três anos, a estimativa de manutenção de um trecho de 31 quilômetros mantido em solo natural chegou a quase R$ 9 milhões. Já no trecho incrementado com agregado siderúrgico, os serviços necessários para correção de defeitos somaram aproximadamente R$ 430 mil.
Luciana fez a ressalva de que parte dos problemas observados no trecho experimental esteve relacionada ao fato de a norma ainda estar em desenvolvimento. As lições obtidas com a primeira aplicação vêm sendo incorporadas aos ajustes da especificação, com o objetivo de aprimorar a qualidade do serviço.
A experiência faz parte de um processo mais amplo de desenvolvimento de normas para utilização de materiais alternativos. De acordo com Luciana, estudos anteriores já haviam demonstrado o potencial do agregado siderúrgico para utilização em base e sub-base de rodovias de alto tráfego. O avanço seguinte é a aplicação em rodovias não pavimentadas, com a BR-259 entre as iniciativas previstas.
Economia circular depende de segurança técnica e regulatória
Para Leila Kauffmann, a discussão realizada na ABM Week 10 representa uma etapa de aprofundamento de um tema trabalhado há mais de duas décadas: a utilização de agregados provenientes da mineração e da siderurgia. Segundo ela, o encontro reuniu o arcabouço técnico e ambiental necessário para ampliar a utilização desses materiais.
A especialista destacou que o DNIT já desenvolveu normas para o uso de materiais alternativos em base e sub-base e avançou também na regulamentação para revestimento primário de vias. Na avaliação de Leila, a aplicação pode beneficiar especialmente comunidades e áreas rurais, onde as condições das estradas não pavimentadas exigem manutenção recorrente.
A questão econômica está diretamente relacionada ao conceito de economia circular. Para a moderadora, a utilização de materiais gerados pelos processos industriais pode reduzir a necessidade de extração de recursos naturais, ao mesmo tempo em que cria valor para materiais que anteriormente eram tratados como resíduos.
“É um produto, não é mais um resíduo”, afirmou Leila, ao defender uma mudança de percepção sobre o agregado siderúrgico e seu potencial de aplicação. Segundo ela, estudos e dados técnicos já existentes também são importantes para enfrentar dúvidas relacionadas aos possíveis impactos ambientais do material.
Outro desafio apontado é a harmonização dos procedimentos regulatórios entre diferentes estados. Leila destacou a necessidade de maior articulação entre setor privado e poder público para estabelecer condições que permitam a aplicação sustentável dos materiais. Entre os pontos discutidos está a utilização do Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), cuja exigência pode variar conforme o órgão ambiental estadual.
Mais durabilidade para as vias
A experiência do DNIT também evidencia um dos principais ganhos potenciais do uso do agregado siderúrgico: reduzir a frequência de intervenções necessárias para manter a trafegabilidade de estradas não pavimentadas.
Segundo Luciana, o solo natural é suscetível à erosão provocada pelas chuvas, o que exige recomposição periódica. O uso do agregado siderúrgico pode proporcionar maior resistência aos ciclos de chuva e ampliar o intervalo entre as intervenções de conservação, mantendo o padrão necessário para a circulação. “Há um grande número de diferenças entre manter um padrão só com solo ou manter com esse melhoramento”, afirmou a especialista, ao comparar os custos de manutenção das duas alternativas no estudo apresentado.
Para Leila, o avanço da agenda depende agora da aproximação entre conhecimento técnico, experiências práticas e políticas públicas. A comissão deve continuar acompanhando projetos em desenvolvimento e identificando novas aplicações que possam contribuir para a preservação de ativos, redução de impactos ambientais e aproveitamento de materiais secundários.
A perspectiva, segundo a moderadora, é ampliar a cooperação entre diferentes atores e consolidar soluções que já possuem respaldo técnico para que possam ser utilizadas de maneira mais ampla e sustentável.
Sobre a 10ª ABM Week
Realizada entre os dias 8 e 10 de setembro, no Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo, a ABM Week é o principal evento técnico-científico e empresarial da América Latina voltado aos setores de metalurgia, materiais e mineração. A programação reúne congressos, seminários, simpósios, mesas-redondas, painéis, sessões técnicas e espaços dedicados à inovação, conectando empresas, academia e especialistas para discutir os principais desafios e tendências da indústria.
A 10ª edição da ABM Week teve a Gerdau como anfitriã e contou com o patrocínio das seguintes empresas: ArcelorMittal, DME Engenharia, Primetals, SMS group, Ternium, Usiminas, Vale, Bruker, Shinagawa, Acre, Aperam, Aplan, Carboox, Danieli, HWI – a member of Calderys, Ibar, Tecnosulfur, Reframax, RHI Magnesita, Vesuvius, Aldak Tenologia, Autron, AVB, Beda/Lechler, BRC, BRX Sistemas, Clariant, Contemp, Danfoss, EnergyTech, GE Vernova, GMI, Harsco, Jenike & Johanson, JK Global, Kaefer RIP, Kuttner, Lhoist, Maud Group, Nalco Water, NSK, Nouryon, Phoenix Global, Polytec, Ramon, Yantai Refra, Rimac, Russula, Tractian, Vika Controls, Wisdri, ABB, AçoKorte, Atomat, Belge, Camet, Cemi, CISDI, Cordstrap, DANTAN, Data Engenharia, Ducon, Densit/Densyx, Direxa, Durag, Eirich, Evcomx, Fluke, Fosbel, Furnace Solutions, Gervasi, Hastec, Heidenhain, Heraeus Electro-Nite, Herkules Group, IMS, Industrial Scientific, Instron, Intelbras, IRF South America, JT & Partners, KMD, Koppern, Lumar Metals, Malvern Panalytical, Rijeza, Ringspann, Sage, São Joaquim Laminação, SMS Mill Services, SNF, Solenis, Spraying Systems, Suncoke Energy, Terresis/Magna, Tmeic, Togni, TotalEnergies, Utis, Veolia, Vixteam, Waelzholz Brasmetal e Weir.






